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Lisbela e o
Prisioneiro, de Guel Arraes, é uma comédia
romântica temperada com um frenético molho
nordestino-pop.
A
história aposta num par inusitado. De um
lado, está Lisbela (Débora Falabella), moça
romântica do interior que troca tudo na vida
por uma sessão de cinema.
Para
ela, os sonhos nascem na telona, onde os heróis
são os atores norte-americanos dos filmes
exibidos em capítulos na cidadezinha da Zona
da Mata pernambucana, onde ela mora.
Toda
semana, ela espera com ansiedade a seqüência
do mesmo modo que se acompanhasse uma novela.
Não compartilha de sua paixão o noivo
Douglas (Bruno Garcia), o mauricinho de província
que se gaba de ter morado no Rio de Janeiro,
guardando dessa temporada um sotaque deslocado
só para fazer pose. Mas, para poder ficar a sós
com a noivinha, ele topa o arranjo. O problema
é que ela insiste em prestar atenção ao
filme.
Está
para entrar na vida de Lisbela o personagem
que vai virar toda esta rotina pelo avesso, o
conquistador Leléu (Selton Mello). Sem eira
nem beira, ele viaja pelas estradas do Brasil
a bordo de um caminhãozinho fuleiro,
trabalhando ora como vendedor de elixires
duvidosos, ora como ator de encenações
mambembes da Paixão de Cristo.
Feito
marinheiro, Leléu vai destroçando corações
a cada porto e arrumando encrencas. A última
foi a conquista da sinuosa Inaura (Virginia
Cavendish) que, para seu azar, é mulher de um
matador de aluguel, que atende pelo sugestivo
nome de Frederico Evandro (Marco Nanini).
Quase
flagrando Leléu na sua cama, Frederico
persegue o safado pelas estradas do Brasil. Até
que os destinos de Frederico, Leléu, Lisbela
e Inaura cruzam-se na mesma cidade, onde o pai
de Lisbela é o chefe de polícia, o tenente
Guedes (André Mattos).
Com
um elenco afinado, quase todo vindo da encenação
teatral da peça original de Osman Lins, a
parte do imbróglio cômico-romântico
funciona bem.
O
ritmo frenético é garantido pela montagem,
que acumula cerca de quatro mil cortes,
segundo o próprio diretor. Já não se pode
dizer o mesmo dessa ligação de Lisbela com o
cinema, que não soa convincente, ainda mais
depois da chegada da televisão a praticamente
todos os rincões do país.
O
fato de que os ídolos da tela sejam todos de
muitas décadas atrás - Lauren Bacall, Rita
Hayworth - parece um tanto artificial, porque
nada no filme sugere que a história aconteça
no passado. Portanto, está aí uma referência
que poderia ter sido atualizada.
Este
detalhe compromete um pouco a primeira parte.
Depois que a aventura de Leléu e Lisbela
deslancha, embalada no contraponto cômico do
casal formado pelo cabo Citonho (Tadeu Mello)
e Francisquinha (Lívia Falcão), tudo corre
muito melhor.
Outro
ponto forte é a trilha sonora, coordenada
pelo diretor teatral João Falcão e o músico
André Moraes, com diversas participações de
Caetano Veloso, como cantor e
compositor.
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