Longe
do Paraíso
(Far from Heaven, EUA,
2002) é um dos grandes destaques da
nova safra de filmes independentes
americanos. Sua originalidade é fruto
do criativo trabalho de um dos maiores
diretores da atualidade, Todd
Haynes. Ele ficou conhecido no Brasil
com seu longa de 1991, Veneno
(Poison),
um filme que mistura três narrativas
de linguagens diferentes,
documentário, ficção-científica B
e homoerotismo. Esse filme teve a
colaboração do brasileiro Karim
Ainouz, que dirigiu recentemente
Madame
Satâ.
Seu longa de 1998,
Velvet Goldmine, causou polêmico
pelos problemas jurídicos causados
por David Bowie que proibiu qualquer
menção ao seu nome pelo fato da obra
retratar o glitter rock do início dos
anos 70. O
problema maior era o fato do filme
insinuar o rumoroso caso entre Bowie e
Mick Jagger, que foram surpreendidos
na cama pela mulher de Bowie, o que
resultou no clássico dos Roling
Stones,
Angie. O filme traz uma forte
cena de nu frontal do bem servido Ewan
McGregor, que encarna uma personagem
referente a Jagger.
Em
Longe do Paraíso,
Haynes cria um
filme totalmente diferente de seus
trabalhos anteriores, recriando e ao
mesmo tempo homenageando o melodrama
clássico americano da Hollywood dos
anos 50, citando diretores como
Douglas Sirk. Ambientada no interior
dos Estados Unidos, na década de 50, Longe
do Paraíso, conta o drama de uma
pacata dona de casa, Cathy,
interpretada por Julianne
Moore, que
descobre acidentalmente que seu
marido, Frank, interpretado por Dennis
Quaid, é um homossexual enrustido que
tem um caso com um amigo. O mundo
perfeito de Cathy desmorona e então
começa o drama das personagens,
tratado com delicadeza, respeitando as
regras do gênero melodramático
clássico proposto por Haynes nesse
filme, cujo roteiro original é de sua
autoria.
A fotografia deslumbrante de
Edward
Lachman, que recebeu menção honrosa
do júri do Festival de Veneza do ano
passado, e concorreu ao Oscar desse
ano, é um espetáculo à parte. A
cartela de cores de cada cena é
perfeita e as externas são
belíssimas retratando o interior dos
EUA como um lugar onde nada de ruim pode
chegar, um mundo perfeito como o que
Cathy julgava ter. A amizade dela com
o jardineiro negro da casa, gera toda
uma onda de preconceito em torno dela.
A cena em que o marido procura ajuda
com um médico para "curar"
sua homossexualidade, retrata toda a
ignorância da época quando o doutor
lhe indica eletro-choques como
terapia. Julianne Moore ganhou o
prêmio de melhor atriz no Festival de
Veneza do ano passado
por esse filme e concorreu, pelo mesmo
papel, ao Oscar 2003 de melhor atriz.
Por
coincidência, ela também foi
indicada ao Oscar de atriz-coadjuvante
desse ano pelo excelente As Horas (The
Hours), onde também interpreta uma
dona de casa americana da década de
50 que sofre ao se descobrir
apaixonada por sua melhor amiga e
vizinha.
Uma
dessas jóias raras que chegam até os
cinemas brasileiros, Longe do Paraíso
é um filme poético e delicado, que
merece ser conferido com atenção.